A minha irmã está outra vez no hospital com a minha afilhada. Está lá desde as 21h e espera ser atendida pelas 3h da manhã. É o costume. Porque a minha irmã trabalha quase 12h por dia e a miúda anda com uma virose que costuma dar aos putos e que se traduz em febre e vómitos, então só quando chega à noite a casa é que vai com a miúda para o hospital e depois saem de lá aquela rica hora.
Eu não acho nada bem que a minha irmã faça tantas horas, mas sempre as fez durante anos antes da miúda nascer e é paga para isso. Quando ela nasceu a minha irmã devia ter abdicado de parte do salário e ter mais tempo para criar a filha. Não o fez por receio de perder o emprego e é essa a cruz de algumas mulheres.
Devia-o ter feito ainda assim porque é preciso paciência, coisa que dificilmente se tem depois de 12h de trabalho, e é preciso tempo. Para lhes dar de comer e banho, para brincar com eles e ajudar a fazer os trabalhos de casa, para arrumar o que eles desarrumam e para ir com eles para o hospital porque andam sempre doentes.
Independentemente da hora a que vão sair de lá, pelas 7h têm que se pôr a pé. A minha irmã vai trabalhar e a minha afilhada fica numa ama que por muito cuidadosa que seja, não é a mãe.